Na antiguidade, durante o apogeu do Império Macedônico, no auge das campanhas de Alexandre Magno, também conhecido como Alexandre, o Grande, ao conquistar a cidade portuária de Sinope, localizada na região da atual Turquia, ouviu falar de um homem sábio, famoso por andar com cachorros pelas ruas e morar dentro de um barril.
Além de ser um militar talentoso, Alexandre cultivava interesse pelo conhecimento, tendo sido discípulo do próprio Aristóteles. Montado em seu famoso e imponente cavalo Bucéfalo, ao encontrar o tal sábio, se apresentou:
- Sou Alexandre, o Grande. Diante de mim prostram-se os reinos. Sou possuidor de muitas riquezas.
A conversa, acompanhada por uma grande plateia e toda a comitiva do comandante, esperava uma reverência, mas foi surpreendida pela resposta do sábio:
- Eu sou Diógenes, e isso me basta.
Intrigado com o homem e surpreso com o desdém nada comum, Alexandre insistiu:
- Ouvi muito sobre sua sabedoria e te ofereço metade de minhas riquezas, se quiser acompanhar-me.
O sábio manteve seu desdém:
- De você não desejo nada. Quero apenas que saia da frente do meu sol, pois está me fazendo sombra.
O público, incrédulo, teve várias reações. Afinal, era Alexandre, o Grande! Alguns zombaram de Diógenes, mas foram repreendidos pelo general:
- Não zombem deste homem, pois, se eu não fosse Alexandre Magno, queria ser Diógenes.
Diógenes de Sinope ficou para a história como um dos filósofos do movimento "Cínico", corrente filosófica que valorizava a felicidade na simplicidade da vida, sem a necessidade de posses e bens.
Assim como Sinope, Barra do Ribeiro também tem seu sábio cínico.
A conversa com o nosso personagem não foi diferente. Sentados na calçada e rodeados pelos seus seguranças particulares de quatro patas, todas as perguntas foram respondidas em forma de rima. Por exemplo:
"Meu nome é Valdomiro das Neves Brandão
Nascido e criado no Picadão
De frente para o Guaibão
De fundos com o Ribeirão
Filho de Laura Maria das Neves
E de Varisto Brandão".
Valdomiro, ou Jacaré, como todos o conhecemos, nasceu em 17 de setembro de 1953. Criado em nossa cidade, afirma que tudo o que teve ganhou e teve a sorte, na infância, de ser apadrinhado pela família Wagner, que custeou sua educação, sendo aluno interno da Escola São José.
Seu primeiro emprego veio aos 12 anos, quando foi escolhido por Osvaldo Pierobom para trabalhar na Frederes, atuando no posto de gasolina da empresa ou como assessor de peças.
Além da Frederes, trabalhou em empresas que marcaram a nossa história, como a Borregaard, onde assinou a chamada "carteira rural" em 1971, e na Pampeiro. Por essa última, viajou por todo o estado. Em uma das voltas dessas viagens, se deparou com o fim da empresa. Segundo ele conta, viu uma multidão de funcionários pendurados na grade. Ele e os colegas que chegavam juntos receberam duas caminhonetes como pagamento dos direitos trabalhistas. As caminhonetes foram vendidas e o valor dividido igualmente.
Entre muitas profissões que já exerceu, volta e meia faz serviços de pedreiro e, com sua habilidade para rimas, pode ser considerado também um excelente matemático, fazendo contas de cabeça que muitos de nós levaríamos tempo para resolver na calculadora.
"Quem faz conta sabe a rima
Os números são a verdade
E nunca dobram a esquina".
Hoje em dia, é comum encontrar essa figura pelas ruas, com seus companheiros caninos, ou nos bares, onde dá aulas e shows de versos, sempre acompanhando de perto o cotidiano da nossa cidade e os jogos do Grêmio.
Como Diógenes, o "Cachorro", pelo que conta, não precisa de muito para viver. Conta com a simpatia de muitos e define sua própria vida com os seguintes versos:
"No momento só conto as horas
Sempre agradecendo a Deus e à Nossa Senhora
Meu nome é Jacaré e Deus é que é demais".