A população brasileira a partir dos anos 1500 começa sua formação através das misturas de raças. Os nativos indígenas, pertencentes aos povos Tupi Guarani, conhecem os Portugueses, que apesar de não usarem inicialmente a então Terra de Santa Cruz como ponto de parada para o caminho das Índias, aos poucos foram se convencendo para realizar o processo de colonização efetiva. A partir disso, iniciam aqui tentativas de tornar a terra mais lucrativa, com a implantação das plantações de cana de açúcar e, nesse processo, começamos a receber aqui os escravizados do continente africano, além das heranças genéticas.
As heranças se fazem presente em nossa cultura e na fé. A mistura cultural e religiosa de índios, portugueses e africanos resulta em uma figura popular na cultura do nosso país, presente em muitas cidades desde nossa formação até os dias de hoje, as Benzedeiras.
Barra do Ribeiro não é diferente. Temos as nossas Benzedeiras e Benzedores, e dessa que hoje falo muita gente que se benzeu com ela a conhece como "Tia Ana" ou "Dona Ana". Por minha vez, eu conheço por Vó Ana, sim, mãe da minha mãe.
Ana Regina Baum Didio, nascida no dia 29 de janeiro de 1954, ano em que ocorreu a morte de Getúlio Vargas, é filha do seu Nenê, ou Edgar Baum, aquele que tinha um armazém de secos e molhados na Alberto Pasqualini, e dona Vilma, a Vilma Ovale Baum, que sem nada de acaso, também era benzedeira. O início de sua infância foi na avenida, quando a família morou pela frente do atual campo do Juventus. Aos 13 anos, foi para a Alberto Pasqualini, onde morou até se casar com 16 anos com Henrique Didio, o Caturrita. A partir daí, o casal foi morando pelas fazendas em que o trabalho surgia, como por exemplo a Fazenda Timbaúva e a Olaria do Cacaio.
A benzedura, por sua vez, veio meio que sem querer, mas também naturalmente. Já diz a tradição, é um dom passado dos pais para os filhos e, nesse caso, de pais para filha. Sendo neta de avós parteiras e benzedeiras, a fruta não caiu longe do pé. Um dia, naturalmente, benzeu uma vaca de leite que apareceu doente e, dali para frente, não parou mais. Fosse animal ou fosse gente, de quebrante, olho gordo, cobreiro e mal jeito, lembrando das rezas e benzeduras que aprendeu de boca, usando ervas como a boa e velha arruda, benzeu gente de todo tipo, de tudo que foi lugar, branco e preto, pobre e rico, criança e velho. Foram tantas pessoas que seria impossível contar.
Sem religião definida, a fé em Deus e Jesus Cristo é a base da cura e de cada reza. Como tudo na vida tem seu começo e seu fim, hoje a dona Ana já não benze mais. Com a missão cumprida por ter benzido muita gente, chegou a sua vez de cuidar da saúde e aproveitar a família. Com sete filhos, 12 netos e 2 bisnetos, acompanha o filho Dionatan no mate ao lado do fogão a lenha bem campeiro, mas com a gratidão de muita gente que por lá um dia se benzeu.