Cultura é muito mais do que uma palavra. Ela é uma bandeira que tem seu mastro apoiado sobre o solo fértil da Arte e da Educação. Por sua vez, seus personagens podem ser considerados os verdadeiros baluartes de uma batalha que se torna cada vez mais difícil, diante de desafios cada vez maiores, frente à concorrência desleal da tecnologia mal utilizada, à falta de educação social e ao pouco incentivo estatal.
Mesmo assim, em meio a tantos obstáculos, existem aqueles que lutam contra essas adversidades e mantêm esse estandarte de pé. Em Barra do Ribeiro, essa batalha é travada por Ângela Beck.
Ângela Maria Figueira Beck é filha de dona Wilma Figueira Beck, que já teve sua história contada por aqui, e de Aldo Prado Beck. Nasceu em Porto Alegre, mas passou sua infância em Barra do Ribeiro, estudando na Escola São José e fazendo Magistério em Guaíba, no ano de 1975.
Já formada, em 1979 assinou sua carteira de trabalho como professora de um 4º ano. Aos 40 anos, voltou à Escola São José como professora, permanecendo até 1980. Naquele período, prestou vestibular na PUC e na UFRGS, quando foi para Porto Alegre estudar Licenciatura Curta em Ciências. Em 1987, cursou a Licenciatura Plena. Nesse período, já havia retornado para Barra do Ribeiro, em 1983.
Em 1985, casada, teve sua primeira filha, Thaís. Nesse mesmo período, prestou concurso para a Escola Fernando Hoff, quando a instituição ainda funcionava em seu primeiro endereço, na conhecida casinha de madeira. Posteriormente, acompanhou a escola em sua mudança para a localização onde hoje funciona a APAE. Em 1989, foi cedida para o Colégio Carlos Pinto, sendo nomeada pelo Estado em 1990.
No CPA, trabalhou de 1990 a 2005, onde foi professora, vice-diretora e diretora. Em 1989, teve sua segunda filha, Annelise, e, em 1990, nasceu o caçula, Thomas.
Em julho de 2005, foi chamada para o concurso do Estado como procuradora, passando dois anos em Porto Alegre e, depois, nove anos em Guaíba. Aposentou-se em 2016 e, no dia 10 de outubro, completa 10 anos de aposentadoria.
Nesse período, sua mãe, Wilma, lamentava o abandono do prédio que fora seu local de trabalho: a conhecida telefonia de nossa cidade. Em julho de 2011, após um esforço conjunto de mãe e filha, nasceu o Multispaço, com a ideia de ser um espaço dedicado à cultura e à arte. Em 2013, o time ganhou o reforço da professora Bárbara Kahmann. Desde então, as alunas do Ballet Bárbara Kahmann vêm, ao longo dos últimos anos, acumulando apresentações e conquistas em festivais pelo Estado afora, com ballet e dança moderna.
Após a pandemia, em 2021, surgiu também a ideia de trazer alegria, criatividade e aprendizado para as crianças. Junto à professora Ligiana Rocha, nasceu a Trupe da Folia, que vem espalhando brincadeira, música e teatro pelas escolas de nossa cidade e, agora, rotineiramente, no Instituto CMPC.
No último domingo, 24 de agosto, ocorreu, no galpão da Prefeitura, a comemoração dos 15 anos do Multispaço, reunindo apresentações de alunos de dança, música e teatro, além de autores convidados de nossa cidade. O evento marcou não apenas os 15 anos do espaço, mas também uma trajetória construída através da arte, da educação e da participação da comunidade.
E, quase como um presente do destino para o aniversário do Multispaço, por intermédio da vereadora Andrea Carteira e do deputado Alexandre Lindenmeyer, o espaço foi classificado em edital como Ponto de Cultura, recebendo verba estadual do Procultura. Isso possibilitou ao espaço oferecer mais aulas, como violão, ballet, teatro e roda de samba. E, como presente para a comunidade, as calçadas agora estão pintadas com diversas brincadeiras para a criançada que vai e vem.
E não podemos falar de Ângela Beck sem falar da música. Foi por meio de suas professoras, como Maria Clara Shacker, Clarisse Wist e dona Eloá Anieta, que teve seus primeiros contatos com esse universo. No começo da faculdade, chegou a cursar o bacharelado em piano, mas encontrou uma realidade que não combinava com aquilo que buscava: a vida solitária do pianista, passando horas sem contato humano e, principalmente, sem crianças.
Para Ângela, a música precisa e deve ser um elo entre as pessoas. E, com o passar do tempo, foi justamente a música que ligou sua alma à educação. Talvez seja essa a essência de sua trajetória: não enxergar a arte como algo distante, mas como uma ferramenta capaz de aproximar, ensinar, despertar criatividade e transformar vidas.
Que venham mais 15, 50 e 100 anos para o Multispaço e para o legado e a obra de Ângela Beck.