Olhando para a página em branco, com o pensamento da mesma cor, sem nenhuma palavra interessante para começar o texto, tive a ideia de tomar uma atitude só para ver o resultado.
Solicitei à IA (Inteligência Artificial) que iniciasse uma crônica com o mesmo título desta que você, leitor, espero que esteja lendo.
Eis, um pouco do que esta fascinante, poderosa e amedrontadora ferramenta escreveu:
"Outro dia, tropecei na calçada e quase fui ao chão. Olhei ao redor, procurando testemunhas do meu tropeço. Ninguém. Suspirei - aliviada - como se esconder a minha imperfeição fosse uma vitória. Mas depois ri de mim mesma. Por que temos tanto medo de sermos humanos?"
Não contente com este preâmbulo bem criativo, na minha opinião, a tal da IA ainda me pergunta se quero que ela continue ou se desejo continuar eu mesma.
Pedi que continuasse, para ver o que ela iria escrever.
Sem vergonha nenhuma, em questão de segundos ela criou o seguinte parágrafo.
"Ser imperfeito exige coragem. Coragem para pedir desculpas, para dizer 'não sei', para falhar diante dos outros e mesmo assim continuar. Coragem para dizer 'estou cansado', 'estou triste', 'preciso de ajuda'. Coragem para ser quem se é, sem verniz".
Continuei conversando com a criatura artificial e ela foi ganhando força e se largou a dissertar sobre o assunto, só parando de vez em quando para me questionar se queria finalizar ou preferia que ela o fizesse.
Caros leitores, tenho coragem suficiente para dizer que me senti tentada a copiar e colar e fingir que tinha escrito o texto. Entretanto, aprendi com meus pais a falar a verdade, pois confiança é algo muito valioso que quando perdido é difícil conquistar de novo.
Se tivesse copiado aqui o texto escrito pela IA, ninguém duvidaria de mim e a autoria seria, sem dificuldade, creditada na conta da minha escrita.
Esta possibilidade criou em mim uma sensação de medo, insegurança, pois fiquei imaginando se contando o que fiz o leitor confiaria em que sou eu mesma que escrevi, como venho fazendo durante estes mais de vinte anos nesta coluna.
Tenho minha própria inteligência, desenvolvida nos bancos das escolas e da faculdade, sem contar a Vida que foi me ensinando as melhores e piores lições.
Confesso, outra vez, que me deu uma vontade enorme de xingar esta tal de IA e mandá-la plantar batatas, sem querer ofender as batatas...
Como sou educada, resolvi fazer do meu jeito, aproveitando o que me foi sugerido porque concordei em quase tudo, então, termino assim.
Mas há uma liberdade imensa quando a gente aceita que não precisa acertar o tempo todo. Que pode viver com rascunhos, dias cinzentos e palavras mal ditas. Que pode se refazer. Que ser humano é, acima de tudo, ser inacabado. Talvez a gente só encontre a paz quando parar de querer ser obra-prima e se permitir ser processo. Incompleto, sim. Mas honesto. Verdadeiro. Vivo.
Gracias, IA.