Comprei um sorvete.
Desses que vem todo embrulhadinho e para comer a gente tem que ir descascando aos poucos para que a casquinha não se quebre e o conteúdo se esparrame por nossa roupa.
O sabor é bem bom, tem o nome de crocante, embora a casquinha não faça aquele barulho evidenciando que está bem novinha…
Comer este sorvete, hoje, me fez relembrar o meu tempo de infância.
Em frente a minha casa havia um bar, o bar do Seu Ory.
Este bar era o paraíso da criançada porque tinha as melhores guloseimas daquele tempo: bastão de leite, chocolate 4 Ases, balas variadas, pastéis e também os adultos se divertiam ali saboreando os quitutes e as bebidas.
O melhor de tudo era o sorvete, fabricado pelos próprios donos, numa máquina misteriosa que transformava os ingredientes numa cascata de sabores para o paladar refinado de toda a gurizada.
E quando falo sabores estou me referindo ao sabor natural das frutas que eram a base do sorvete: banana, ameixa, creme, chocolate.
Quando os pais podiam, deixavam a gente comer o sorvete que vinha numa taça de inox do tamanho justo da nossa gula infantil.
Também tinha a chamada vaca preta, que era a mistura de sorvete com coca-cola, feita num copo alto com um canudo para sorvermos a bebida com toda pompa e circunstância merecida.
Nenhum dos sorvetes que existem hoje tem a mesma qualidade e o mesmo sabor daqueles que comia quando criança no bar do tio Ory e da tia Edite.
Quem quiser pode me chamar de saudosista ou dizer que estou ficando velha por falar de como era o sorvete no meu tempo… Nada disto faz importância para mim.
Só quem comeu aquele sorvete sabe do que estou falando e tenho absoluta certeza de que eles compartilham da minha opinião.
Este sorvete é uma das centenas de lembranças maravilhosas que guardo com carinho no meu coração.
Penso que para mim tio Ory e tia Edith eram uma espécie de magos que transformavam os ingredientes naquela nuvem de sabor que quando chegava na boca me fazia pensar que realmente nada podia ser melhor do que ter a oportunidade de sentir o gostinho daquele sorvete.
Talvez seja por isso que aprecio tanto esta doçura. Penso que procuro nos atuais o sabor daquele outro.
Como dizem os psicólogos: nós saímos da infância, porém a infância não sai da gente.