Era pouco depois das 2h da madrugada do último domingo, 12 de julho. Juliana Weeck se levantou, se arrumou no escuro e colocou tudo no carro. Rezou para não chover. Fazia seis meses que aquele momento era o único ponto fixo no horizonte da sua vida. Seis meses de treinos quatro vezes por semana, academia três vezes, alimentação controlada, sono priorizado, viagens planejadas em torno dos longões, ausências justificadas aos amigos e à família. Tudo por aquele dia. Tudo por 42 quilômetros.
Ela não estava sozinha. Mais de 70 atletas da Moving Treinamento Físico, de Barra do Ribeiro, estavam inscritos na terceira edição da NB 42k, a Maratona New Balance realizada em Porto Alegre, distribuídos entre os percursos de 5, 10, 21 e 42 quilômetros. Juntos, eles colocaram o nome do município num evento que reuniu cerca de 21 mil participantes, com inscrições esgotadas em apenas 96 horas, um ano antes da largada.
O maior palco da corrida de rua
A edição de 2026 da NB 42k teve um ingrediente que elevou o evento a outro patamar: a presença de Eliud Kipchoge, o queniano que é o maior maratonista da história e o primeiro ser humano a completar os 42.195 metros abaixo de duas horas. Para quem vive a corrida, a comparação que circulou entre os atletas diz tudo: correr no mesmo evento que Kipchoge é como jogar futebol com Pelé.
O atleta esteve em Porto Alegre como parte do Projeto 7 Maratonas em 7 Continentes, uma turnê mundial de dois anos que busca promover o esporte, inspirar pessoas e arrecadar fundos para projetos de educação e meio ambiente por meio de sua fundação. Para Kipchoge, "no human is limited" (nenhum ser humano tem limites). Uma filosofia que os corredores barrenses experimentaram na pele naquele domingo.
Meses de preparação nas ruas de Barra do Ribeiro
Muito antes da largada em Porto Alegre, a preparação já havia transformado as ruas de Barra do Ribeiro num palco de treinos. Durante quatro a seis meses, os atletas da Moving acumularam quilômetros sob sol, chuva e frio, madrugadas, fins de semana, feriados. Ninguém vê os treinos. Todo mundo vê a chegada.
A corrida tem crescido exatamente por aquilo que representa além do esporte: ela conecta pessoas, serve de válvula de escape do cotidiano e muda a forma como cada um se enxerga. Na Moving, esse processo começa pelo começo. Ninguém chega já correndo dez quilômetros. Começa-se com a coragem de tentar, de ser aprendiz novamente. Sem julgamentos, com muito incentivo.
A história de Juliana Weeck
A decisão foi repentina. Em meados de junho de 2025, numa consulta com a nutricionista, surgiu o convite: "Bora fazer 42km na New Balance em 2026?" A resposta de Juliana foi imediata: "Bora!" O arrependimento veio logo depois.
"Depois fiquei pensando no que eu fui me meter", conta. "Primeiro senti empolgação, adrenalina. Depois medo, arrependimento, pois é algo grandioso, envolve muitas coisas das quais eu só fui ter conhecimento quando o ciclo de fato começou."
Foram seis meses em que a maratona ocupou cada canto da rotina. Quatro treinos de corrida por semana, três sessões de força e mobilidade na academia, alimentação inteiramente pensada no ciclo da prova. "Minha vida nesses seis meses girou em torno da maratona", diz. "Abri mão de estar com pessoas que amo. Só podia pensar em ir em algum lugar se já tivesse treinado."
O momento mais difícil veio num treino de 22 quilômetros, em 28 de março. No 18º km, o desespero bateu. Ela parou. Chorou. Disse que ia desistir. Foi o coach que a fez voltar. "Foi ali que entendi que a cabeça da gente nos sabota. O corpo diz para, mas o coração bombeia o sangue pra seguir em frente."
A largada no barro e a chegada mágica
No dia da prova, a chuva que Juliana tanto temia se confirmou, e veio torrencial. A largada dos 42 km, na Redenção, foi no meio do barro, cruzando poças d'água. "Era muita chuva, a largada foi muito feia, me frustrou um pouco, pois estava imaginando algo lindo, com contagem regressiva, e nada disso aconteceu."
No 15º km, as dores nas pernas chegaram. Em vários momentos ao longo do percurso, a vontade de desistir também. Ela chorou de cansada, chorou de dor, tinha medo de cruzar a linha passando mal. "Tudo o que eu mais queria era cruzar a linha de chegada sorrindo e correndo."

E foi exatamente assim que aconteceu. "Cheguei! Cruzei a linha de chegada! E foi mágico, pois cheguei exatamente como eu queria, sorrindo e chorando, correndo, com a bandeira do Rio Grande do Sul, e com minhas amigas, amigos e minha família esperando por mim. Pessoas que nunca vi gritando meu nome, me incentivando a terminar."

Ao lado dela em toda a jornada, seu companheiro Juliano Machado: "Meu maior incentivador, que guri extraordinário", como ela define.
A mensagem para quem "queria saber correr"
Questionada sobre o que diria a quem sonha em correr mas acha que não é capaz, Juliana é direta: "Ouço muito: queria saber correr. Como assim quer saber correr? A gente esquece que quando estamos aprendendo a caminhar, mal sabemos dar alguns passos e já queremos sair correndo. Logo, desde sempre já sabemos correr. Começa caminhando, trotando e encontra o teu ritmo. Curte o vento no rosto, a sensação de liberdade e o sentimento de que tu é capaz de ir mais longe."
O Novo Tempo utilizou a história mágica da barrense Juliana Weeck para representar outras tantas que existem e acontecem diariamente nas ruas de Barra do Ribeiro. Às vezes, o palco são apenas as ruas do seu próprio bairro. E muitos deles contam com o apoio fundamental de profissionais como os da Moving. Afinal, correr não é sobre fazer 5k, 10k, 21k ou 42k. Nem mesmo sobre o tempo que o relógio marca no intervalo do primeiro ao último passo. É, sim, sobre quem você se torna depois.