A partir da nossa evolução como espécie, uma das coisas que nos possibilitou não apenas a sobrevivência, mas também a evolução de nossos ancestrais até nos tornarmos os seres humanos que somos hoje, foi percebermos que, sozinhos, nos diversos ecossistemas e climas do nosso planeta, não sobreviveríamos. Das cavernas às primeiras aldeias, existem registros da formação de núcleos familiares que, mesmo nesses primórdios, iam muito além do parentesco direto ou mesmo consanguíneo.
Nas últimas cinco décadas, nossas famílias vêm rompendo com os padrões tradicionais e patriarcais. Muitos avôs e avós são pais e mães de seus netos, muitas mulheres são mães solo e muitos padrastos criam filhos como se fossem seus. Não existe uma regra para ser família.
Em um primeiro momento, quando me deparei com as histórias do meu entrevistado e da nossa personagem, pensava em escrever duas histórias. Porém, no decorrer do que fui ouvindo, não conseguia imaginar escrevê-las ou contá-las de outra forma. Estamos falando de Willian Corrêa e de dona Ilsa da Silva.
Willian Nunes Corrêa Barbosa nasceu no dia 19 de fevereiro de 1987, em Guaíba. E, para quem pensa que dona Ilsa era sua avó, não era. Embora tenha exercido o papel de mãe em sua vida, por parentesco, ela era sua tia-bisavó. Ilsa da Silva Silveira nasceu no dia 22 de outubro de 1925 e faleceu em 14 de abril de 2014.
Por questões familiares, como já citado, dona Ilsa foi quem criou Willian e exerceu diretamente o papel de mãe em sua vida. A história de Ilsa tem suas raízes no Passo da Estância. Viúva muito cedo, carregou essa dor internamente ao longo da vida. Talvez tenha encontrado no cuidado com o próximo uma maneira de seguir em frente, tornando-se uma pessoa muito caridosa. Ajudou pessoas doentes e, durante 30 anos, trabalhou como merendeira no Colégio Carlos Pinto. O destino começou essa história com dona Ilsa cuidando de Willian e, anos depois, colocou Willian na posição de cuidar dela em seus últimos anos de vida.
Willian, por sua vez, estudou no Colégio Carlos Pinto, onde também foi presidente do Grêmio Estudantil, experiência que despertou seu interesse pela política. Em sua trajetória profissional em Barra do Ribeiro, trabalhou em uma locadora de videogames, fez estágio na prefeitura e passou por uma farmácia, pela Casa Central, pelo Supermercado Nacional, sob a bandeira do Walmart, e, por último, pela Lebes. Em 2012, começou a atuar na fotografia, realizando inicialmente eventos e ensaios. Desde 2016, mora em Porto Alegre e, atualmente, trabalha no ramo da fotografia imobiliária, fotografando imóveis de médio e alto padrão.
O desejo de mudança, que começou a ganhar forma ainda no Grêmio Estudantil, levou Willian também à política. Participou de alguns movimentos em nossa cidade, utilizando as redes sociais ainda em seus primeiros anos de popularização. Em conversas com Pedro Ruas e com o assessor Gilvandro, junto a amigos, participou da fundação do PSOL em nossa cidade e concorreu às eleições de 2014 para deputado federal. Segundo o TRE, somou 695 votos.
Com o tempo, porém, a política ficou em segundo plano. Além da mudança para Porto Alegre, a fotografia passou a ocupar cada vez mais espaço em sua vida. Nesse período, dona Ilsa foi acometida pelo Alzheimer e, durante dez anos, precisou de cuidados constantes, uma responsabilidade que também exigiu de Willian uma reorganização de sua rotina profissional e pessoal.
Atualmente, morando em Porto Alegre, Willian é casado há 20 anos com Giédra Bischoff. Além de acompanhar as transformações do mercado imobiliário por meio da fotografia e de manter seus ideais políticos, tem se dedicado à espiritualidade. Na infância, compartilhou com dona Ilsa a fé na Igreja Católica. A partir da adolescência, flertou com o ateísmo, mas, aos poucos, foi se aproximando da busca pelo divino. Foi então que se encontrou no Espiritismo, passando a fazer parte da Sociedade Beneficente Espírita Bezerra de Menezes, experiência que também lhe trouxe maior compreensão sobre a vida e seus laços familiares.
Willian e Ilsa marcaram a história um do outro. São um exemplo de troca, afeto, carinho e compreensão, mostrando-nos, na prática, aqui mesmo em Barra do Ribeiro, a existência de tantos episódios do livro imenso chamado VIDA. Cabe a cada um de nós fazer pelo próximo o melhor possível, oferecendo-lhe aquilo que gostaríamos de receber. Afinal, talvez seja justamente nisso que resida uma das maiores lições da vida: compreender que os laços que construímos e o cuidado que oferecemos podem ser tão importantes quanto aqueles que recebemos.