Saímos da infância, mas a infância nunca sairá de nós!
Volta e meia me pego pensando na infância e em muitas situações felizes que aconteceram. Tenho o nítido sentimento de lembrar muito mais da infância do que a vida de adulto. As palavras “volta e meia” que usei no início do texto, são coisas daquela época. Lembro do meu avô dizendo isso quando iniciava uma conversa, que saudade gigantesca dele, quando atravessava a rua com um radinho de pilhas grudado no ouvido escutando a reportagem do jogo do Internacional, chegava lá em casa e dizia: "Cacá, o colorado vai jogar hoje, vamos escutar?". A influência dele me fez colorado. Logo depois eu já retornava com ele, chegando lá, a avó já estava mexendo no fogão a lenha, com uma cuia de chimarrão nas mãos.
Eu gostava muito também da imagem de Ogum (São Jorge) que havia na casa, sempre pedia para a vó me benzer, ela era Mãe de Santo.
Cacá era como meu avô me chamava. Éramos muitos os primos, todos netos dele, pois o velhinho colocou apelido em todos!
Até os 7 anos de idade eu residia no bairro Picada, em Barra do Ribeiro, um lugar que também marcou muito a minha infância. Um deles tenho a foto até hoje, em uma charrete para crianças com um cavalo de brinquedo, um homem passava pela rua e as mães levavam as crianças para fazer uma fotografia, coisa rara naquela época.
Outro fato que marcou até hoje foram os dois leões no portão. Sim, eu juro, não é coisa de criança. Havia dois leões no portão da casa do senhor Quidinho, o pescador!
Eu passava e ficava olhando pra eles, conforme eu me afastava e olhava de soslaio, sentia que os olhos deles me seguiam. Às vezes eu saía correndo de medo, a mente de criança é recheada de ilusões.
Em outros dias eu ficava imaginando que em algum momento eles iriam descer e me atacar, mas ao mesmo tempo eu pensava que eles iriam brincar comigo, eu iria jogar uma bola e eles iriam buscar, coisas de criança.
No ano passado, eu estava passeando de carro na Picada, já era início do verão, olhei para o lado e visualizei os dois leões. Estavam lá, talvez a me assombrar ou a me lembrar que ainda temos uma criança em nós!
Parei o carro, peguei o celular e fotografei o portão com os dois leões, um em cada palanque do portão. Estavam lá da mesma forma que estavam a me olhar, há cinquenta anos, um deles um tanto quanto desgastado pelo tempo, o outro um pouco menos. Tentei me ver neles, mas não sei se estou mais ou menos desgastado, assim como eles estão, talvez estejamos iguais, o tempo não perdoa ninguém!
Os dois leões enfeitavam o portão da casa, eram feitos de pedra ou concreto, mas para aquela criança eles estavam vivos, às vezes pareciam amigos, outras pareciam feras.
Um ano depois, no início deste verão de 2026, passei lá novamente e presenciei uma cena terrível, a criança que ainda habita em mim ficou surpresa, triste, apavorada, foram muitos os sentimentos, pois a casa do velho pescador, o seu Quidinho, que dá nome à praia em frente, foi derrubada. O portão e os leões não estavam mais lá, tapumes escondiam os escombros, tentei espiar pelas frestas, mas não visualizei os leõezinhos! Senti um enorme vazio!
O tempo passa e as gerações também, ficam apenas as lembranças, que às vezes nos trazem alegrias e outras nos torturam de tanta saudade!
Tenho saudades dos leões do portão, mas também tenho muitas saudades do Cacá e do vovô Idalirio, pai da minha minha mãe. Que saudades da infância!
Refletindo um pouco mais, acredito que os dois leões me acompanharam a vida toda e só agora me dei conta, pois em muitos momentos da vida também tive que ser como eles, um leão, para poder sobreviver!
Acredito que caminhamos os três juntos por todo esse tempo, os dois me apoiando, um de cada lado, me equilibrando para eu nunca cair!